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DF, Goiás e Minas se unem para combater a covid-19 no Entorno

Acordos de cooperação e reforço nas estruturas de saúde fazem com que os governos do Distrito Federal, de Goiás e de Minas Gerais dividam responsabilidades para evitar a disseminação do coronavírus no Entorno. Hospitais de campanha intensificam a busca por atendimento

Além de encontrar meios de controlar o avanço do novo coronavírus, os governos do DF, de Goiás e de Minas Gerais dividem a responsabilidade de se articular para garantir atendimento a mais de 4,5 milhões de pessoas. Trinta e três cidades dessas unidades federativas fazem parte da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride), que, até sexta-feira, somava mais de 33,7 mil casos confirmados de covid-19.

O desafio intensifica-se a partir do momento em que as notificações se tornam mais frequentes — especialmente entre os 29 municípios goianos da Ride. Em cidades como Luziânia e Santo Antônio do Descoberto, o cenário é heterogêneo: ruas vazias em um lado da cidade; unidades de saúde pouco movimentadas; e aglomeração nos centros comerciais.

 

Entre quem está preocupado com uma possível contaminação, o medo de não conseguir atendimento prevalece. A alternativa, nesse caso, seria buscá-lo na cidade mais próxima, como fez a agente de portaria Salene Lima, 42 anos. Ao saber de um surto de covid-19 na empresa onde trabalha o marido, Francisco Reginaldo, 51, ela percorreu cerca de 45km para fazer o teste de detecção da doença. O casal saiu de Santo Antônio do Descoberto até a Cidade Estrutural, pois o hospital do município goiano não tinha exames disponíveis na ocasião.

 

Salene e Francisco testaram positivo em dois exames, mas não apresentaram quadro grave da doença e receberam atestados para ficar em isolamento por 14 dias. Nesse intervalo, profissionais da saúde locais acompanharam o caso por telefone, mas Salene diz que o atendimento nem sempre é fácil. “Para esse tipo de doença, nem adianta perder tempo no hospital daqui (de Santo Antônio do Descoberto) se você tiver plano de saúde ou como se deslocar para Taguatinga ou Brasília. É um hospital carente, que não tem muito a oferecer. É antigo e imenso, não tem capacidade”, lamenta.

 

Pico

 

Até quinta-feira, 1.712 moradores do Entorno diagnosticados com a covid-19 foram atendidos no DF, segundo dados da Sala de Situação da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB). A região fica em sexto lugar no ranking que classifica as cidades de origem dos casos. Nas próximas semanas, equipes da instituição de ensino superior vão divulgar números mais detalhados sobre a situação dos municípios da Ride.

 

O pesquisador Paulo Angelo Resende, da Associação GigaCandanga e do Observatório PrEpidemia da UnB, destaca que a busca por atendimento médico no Distrito Federal é frequente desde antes da pandemia. Contudo, neste momento, se houver problemas no sistema de saúde das cidades vizinhas, a rede do DF pode sofrer pressão. “Temos preocupação de o aumento do número de casos na Ride colapsar aqui. Se o pico (da curva de contaminação) coincidir, teremos problemas. O daqui deve ser até o fim de julho. Acredito que o do Entorno virá depois do nosso”, presume.

 

Em maio, as secretarias de Saúde do Distrito Federal e de Goiás firmaram um acordo de cooperação para regulamentar o atendimento de moradores da Ride no DF. O documento estabelece ações conjuntas para o enfrentamento da crise sanitária e continuará a valer depois da pandemia. Com isso, a capital federal passa a receber os valores do Sistema Único de Saúde (SUS) pelos tratamentos realizados. O Correio tentou contato com os governos do DF e de Goiás, mas, até o fechamento desta edição, não houve resposta.

 

 

"Temos preocupação de o aumento do número de casos na Ride colapsar aqui. Se o pico (da curva de contaminação) coincidir, teremos problemas. O daqui deve ser até o fim de julho. Acredito que o do Entorno virá depois do nosso”

Paulo Angelo Resende, pesquisador da Associação GigaCandanga e do Observatório PrEpidemia da UnB

 

Mobilização necessária

 

Desde que a pandemia chegou ao Brasil, algumas cidades que integram a Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride) receberam reforço na estrutura hospitalar. Entre elas, Águas Lindas (GO) e Luziânia (GO) inauguraram hospitais de campanha para atender a pacientes com covid-19. Para o professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB) Mauro Niskier Sanchez, o fato de essas unidades de saúde receberem pessoas de diferentes municípios demonstra a existência de cooperação entre os governos do DF, de Goiás e de Minas.

 

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No entanto, Mauro ressalta a necessidade de garantir respeito às áreas de cobertura, para que não haja sobrecarga nos sistemas. “Regiões de saúde não respeitam fronteiras. Fizemos uma análise preliminar em Águas Lindas (GO) e, no ano passado, pouco mais de 10% dos atendimentos de residentes de lá foram feitos no DF, principalmente nos hospitais regionais de Ceilândia e Taguatinga”, afirma.

 

O professor destaca que, se o número de casos subir, será necessário investir na articulação entre governos e prefeituras, na fiscalização do cumprimento de medidas, no monitoramento da situação e no reforço da proteção individual. “Espera-se que consigamos frear o avanço se a covid-19 chegar com muita força ao Entorno. Mas ,é um trabalho que deve ser conjunto, uma ação integrada, pois há fluxo grande de pessoas nesses corredores”, completa Marco.

 

A parcela mineira da Ride — Arinos, Buritis, Cabeceira Grande e Unaí — soma 134 mil habitantes. Considerando-se as subdivisões regionais de Minas Gerais, a porção onde as quatro cidades ficam dispõe de 226 leitos clínicos e 63 em unidades de terapia intensiva (UTI) para adultos. Na quinta-feira, mais de 90% do total estavam ocupados, sendo 20,75% deles por pacientes com covid-19.

 

Morador de Unaí, o administrador de empresas Marco Corrêa, 47 anos, conta que a possibilidade de os casos aumentarem de repente e o acompanhamento médico não ser possível é uma das preocupações. “Há quem esteja fazendo as coisas direito, protegendo-se, evitando aglomerações. E, infelizmente, há quem não se preocupe com o que está acontecendo nem com o que pode vir. Então, por mais cuidados que você tenha, após um descuido de segundos, você pode acabar se contaminando”, lamenta.

 

Unaí soma o maior número de casos entre as três cidades mineiras. Nesse conjunto, não há mortes registradas. A Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais informou que aguarda a abertura de 10 leitos de UTI para pacientes com covid-19 em Unaí. “A secretaria tem discutido a distribuição de respiradores para a localidade (municípios mineiros da Ride) e também buscado fazer a habilitação de leitos junto ao Ministério da Saúde”, comenta o chefe adjunto da pasta, Marcelo Cabral.

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